CINEMA: O Brasil descobre a França......e a França descobre o Brasil- Tobias 700 no Museo da Republica, No Rio de Janeiro





Tobias 700- A História de uma Ocupação





Entre os dias 23 e 26, organizações sociais e documentaristas dos dois países vão trocar experiências de luta e cultura em mostra no Rio

Eduardo Sales de Limada Redação





Fizeram greve no McDonald’s, empresa conhecida por não permitir a mobilização de seus funcionários. Parece impossível, mas aconteceu, na França, em 2003. A experiência dos trabalhadores franceses, com teor pedagógico para os brasileiros, poderá ser vista no Social em Movimentos, mostra de filmes que vai acontecerá entre os dias 23 e 26, no Rio de Janeiro (RJ).

Depois, também será exibida em São João do Meriti (RJ), em 2 de dezembro.A mostra é resultado do sucesso de uma outra ocorrida em Paris - Brésil en Mouvements (Brasil em Movimentos, em francês), que teve duas edições - em 2005 e neste ano. É realizada pela organização não-governamental Autres Brésils (Outros Brasis, em francês).

As exibições serão divididas em quatro temas: trabalho, migrações, racismo e movimentos sociais.Durante o evento, também vão ocorrer debates. Confirmaram presença os documentaristas Joel Zito Araújo (A Negação do Brasil), Aline Sasahara (Salve! Santo Antônio) e Daniel Rubio (Tobias 700), além de Itamar Silva, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), e do jornalista francês Gilles de Staal, estudioso das relações sociais entre Brasil e França. (Confira abaixo a programação completa.)

Como os próprios documentários brasileiros não são exibidos em mostras comerciais, é uma ótima oportunidade para que sejam veiculados, especialmente os que tratam da resistência dos movimentos populares. O filme de Aline Sasahara, Salve! Santo Antônio, de 2004, mostra as conseqüências da explosão de uma fábrica clandestina de fogos de artifício em uma cidade do interior baiano, seis anos após o fato.
Foram 64 mortos, a maioria mulheres e crianças de bairros pobres. A documentarista explica que sua intenção não era exibir a gravação em mostras ou festivais, mas utilizá- la como uma ferramenta para as pessoas prejudicadas lutarem por seus direitos.Para Aline, mostras convencionais recusam o filme, porque o material apresenta depoimentos de pessoas muito emocionadas e as imagens do resgate das vítimas são muito chocantes. “No entanto, o filme tem cumprido esse papel que a gente queria, de ser uma ferramenta de luta. Em outubro, houve uma audiência final na Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), que reuniu o governo brasileiro e várias entidades que assinaram uma petição para que o Brasil reconhecesse a culpa”, diz Aline.O filme foi exibido nessa audiência, que a documentarista considera muito bem-sucedida, pois o governo brasileiro pediu uma negociação amigável e marcou um calendário de encontros em Santo Antônio de Jesus e em Brasília, para discutir pontos na questão dos direitos e da normatização da produção de fogos de artifício. “Finalmente chegamos a um momento positivo”, completa Aline.







Na temática dos movimentos sociais, será exibido Tobias 700, de Daniel Rubio, que trabalha a identidade dos sem-teto no Centro de São Paulo (SP). O vídeo começou a ser feito em 4 de novembro de 2002 e foi gravado durante um ano e três meses na ocupação Prestes Maia. “O que mais me chamou a atenção quando cheguei lá foi a organização. Uma vez por semana, os coordenadores de cada andar levavam seus problemas para o coordenador geral do prédio. Havia uma organização quase perfeita, era proibida a entrada de drogas e a violência familiar. Homem que batia em sua mulher, por exemplo, era expulso”, conta.O documentarista aponta que o personagem que mais chamou sua atenção foi a trabalhadora sem teto Rosane. “Nos cortiços ela pagava entre R$ 250 e R$ 280 por mês. Já no prédio se paga uma contribuição de R$ 10 a R$ 15 para a manutenção. Foco a mudança da relação dela com seu fi lho. Sem ter que pagar aluguel, ela se orgulha de comprar um presente de Natal para o fi lho”, relata.

REALIDADE FRANCESAApesar da relevância dos documentários brasileiros na mostra, esta surgiu da necessidade de se conhecer mais acerca do que é produzido por documentaristas franceses sobre resistência e luta dos movimentos sociais. “Os estrangeiros acham que na França tudo está resolvido, mas lá é um caldeirão só”, revela Aline.O filme Tempestade num McDonald’s, de Nathalie Boisson e Rossalinda Scalzone, traz os depoimentos de seis grevistas que ocuparam o restaurante em 2003.

Falam sobre a luta pelo direito de trabalhar e a resistência à degradação do mercado de trabalho. A documentarista conta ainda que, nos debates em Paris dos quais participou, as pessoas querem se envolver de alguma maneira com a realidade exibida no telão. “As pessoas que saem de casa para assistir um documentário sobre movimentos sociais já têm disposição para conversar e trocar idéias”, conta.Rubio afirma que a realidade entre os movimentos sociais da França e do Brasil são totalmente diferentes.

No Brasil, os sem-teto são aqueles que recebem de R$ 300 a R$ 400 por mês, excluídos da globalização diante do baixo salário, diz. “Na França, a maioria dos movimentos de ocupação é mais política, liderada, sobretudo, por artistas. São pessoas contrárias a pagar aluguéis exorbitantes”, completa.Em Imagens do DAL, de Michel Hoare, a associação DAL (Droit au Logement - Direito à Moradia, em francês) ganhou reconhecimento dos franceses por criar um novo modo de luta política, voltada para os meios de comunicação e para a opinião pública. O filme conta como é a luta pelo direito à moradia na França, onde cada vez mais pessoas, principalmente imigrantes, disputam locais sem condições apropriadas para abrigar uma família.

O diretor de Tobias 700 revela que, na França, os imigrantes são marginalizados, principalmente os que vêm do norte da África. “Essa diferença entre os problemas sociais dos dois países traz um aprendizado diferente. Geralmente os documentários sociais regionais são menos preconceituosos que um documentário mais global”, conclui.

Programação da mostraDia 23 - Trabalho19h - Salve! Santo Antônio, de Aline Sasahara. Seis anos depois da explosão de uma fábrica de fogos de artifício na Bahia, as feridas físicas e morais dos moradores ainda não foram cicatrizadas.20h - Que merda de fábrica, de Rémy Ricordeau. Os operários da indústria química da região de Rouen, França, são levados a questionar seu trabalho.Dia 24 - Migrações19h - Entre nós - sem papéis, sem rosto, sem palavras, de Carole Sionet. Paralelamente à Paris turística, um grupo de pessoas vive sem direito a trabalho, com medo de ser expulso da França.20h - O sonho de São Paulo, de Jean Pierre Duret e Andréa Santana. Mostra a trajetória de um nordestino, José, pelos 3 mil quilômetros que separam sua terra natal de São Paulo.Dia 25 - Racismo19h - Imagens do DAL, de Michael Hoare. O filme conta como é a luta pelo direito à moradia na França, principalmente de imigrantes pobres vindos da África.20h - A negação do Brasil, de Joel Zito Araújo. Mostra como os negros vêm sendo retratados de modo negativo nas produções para TV no Brasil.Dia 26 - Movimentos sociais19h - Tempestade num McDonald’s, de Nathalie Boisson e Rossalinda Scalzone. A experiência de duas greves em uma filial da lanchonete, símbolo do capitalismo, na região central de Paris.20h - Tobias 700, a história de uma ocupação, de Daniel Rubio. Mostra a união e a resistência de famílias que ocuparam um prédio abandonado no Centro de São Paulo.

Local: Rua do Catete, 153, Rio de Janeiro (RJ)Mais informações: www.autresbresils.net

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